terça-feira, 24 de março de 2020

Quando o mundo parou

Há algum tempo o mundo vem passando por um cenário que parece saído de ficção científica. Assim como as imagens das torres gêmeas despencando pareciam cenas de filmes hollywoodianos, assistir, não apenas na televisão, mas no dia-a-dia, à cidades desertas é algo muito estranho. 

Anteontem me aventurei até a agência do banco, pois precisava ir ao caixa eletrônico. Ver a W3 completamente vazia, sem uma única vivalma, me remeteu à lembrança daquela Brasília de 30 anos atrás quando todos iam embora da cidade assim que as férias escolares começavam e, consequentemente, a cidade parecia fantasma.

Às idas à farmácia e ao supermercado também parecem surreais. Ao mesmo tempo que todos se solidarizam uns com os outros pela situação em que nos encontramos, esses mesmos olhares solidários tem por trás o medo. Pessoas se cumprimentam na rua, continuam simpáticas umas com as outras, mas os olhos parecem enxergar cada um como um hospedeiro em potencial desse inimigo invisível. 

Esse mesmo cenário desolador cria situações tragicômicas. Outro dia, na padaria, todos respeitavam a distância de 2 metros entre cada cliente até que um senhor entrou e deu uma única tossida. Imediatamente todos, absolutamente todos, deram um pulo pra trás ao mesmo tempo. Se um coreógrafo tivesse tentado conseguir tal sincronicidade num ensaio, não teria conseguido.

É estranho ver os militares em roupas amarelas especiais como aquelas do filme Epidemia desinfetando a rodoviária de Brasília. É estranho olhar pela janela e ver a quadra completamente vazia.

Aqui em casa a população humana se resume a minha mãe, eu, meus pequeninos, e Maria, nossa ajudante querida. Temos sorte de ter companhia. Penso naqueles que estão sozinhos em casa. Penso em como seria se estivesse em Montreal sozinha com meus nenéns. Teria que ir ao supermercado e farmácia com eles e, assim, expô-los ainda mais. Nesse momento, penso que foi bom decidir passar algum tempo da licença maternidade em Brasília com meus pais. Por outro lado, agora que estou perto dos amigos, só é possível encontrá-los virtualmente como se ainda estivesse no Canadá. Sim, é excelente termos a tecnologia que temos para nos comunicarmos com todos que amamos e que estão longe de nós, mas contato virtual não é e nunca será a mesma coisa do contato pessoal. Aliás, essa é a pior parte de tudo isso: não poder encontrar, abraçar e rir com os amigos.

Quando tudo isso passar, espero apenas que todos nós percebamos quanto tempo temos passado olhando para telas de celular e não para o rosto de um amigo. Quanto tempo passamos olhando redes sociais em aparelhos que tomam nossa atenção mesmo quando estamos na presença de outros. Espero, de coração, que reaprendamos a valorizar o contato pessoal, deixemos as telas de lado e aproveitemos a presença física uns dos outros. 


domingo, 7 de outubro de 2018

Devo ter tido muito azar

Esses últimos meses, de tensão, apreensão e medo, têm me feito pensar muito na minha vida, em tudo que aprendi e continuo aprendendo, e naqueles que cruzaram meu caminho.

Quando nasci, meus pais não sabiam se eu seria menino ou menina, branca, negra, índia, asiática. Isso pra eles não importava. Estavam lá de coração aberto pra receber aquele serzinho, fosse ele quem fosse. O mesmo aconteceu com o resto da minha família: avós, avôs, bisavó, tios e tias, todos de braços abertos pra me receber.

Meus pais me ensinaram a respeitar a vida dos seres vivos não importando Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero ou Espécie.

Cresci com amigos de todas as etnias e classes sociais. Estudei em escola pública e em escola particular e nunca desfiz de quem estudava em uma ou em outra.

Aprendi com meus pais, avós e tios que violência não é solução e só leva à ainda mais violência.

Também me ensinaram que o conhecimento é a maior e melhor arma para: entender de onde viemos e porquê as coisas são da maneira como são hoje; para analizar e discernir caminhos que levarão a um futuro bom pra todos e não apenas para alguns; para não repetir histórias tristes do nosso ou de outros países, ou seja, aprender com a história.

Me ensinaram a respeitar e apreciar a liberdade, e tudo que ela significa: poder ir e vir, opinar, ser quem se é.

Meus pais sempre deixaram claro quando não concordam com decisões que tomo, mas mesmo assim, sempre estiveram ao meu lado me apoiando. Imaginem só que, com essa e outras atitudes, meus pais me ensinaram a amar incondicionalmente. Mas que absurdo!

Fui levada ao escotismo pela minha tia. Lá conheci pessoas de todos os caminhos de vida. No movimento aprendi que não estamos sozinhos no mundo e que este não gira ao redor do nosso umbigo e das nossas vontades, mas que precisamos uns dos outros pra sobreviver e viver. Que juntos podemos muito mais do que divididos.

Cresci aprendendo que as diferenças não são ameaçadoras, mas sim, enriquecedoras. As diferenças são o que fazem esse mundo incrível.

Aprendi a amar as pessoas por serem pessoas, não pela cor da pele delas, pelo sexo com o qual nasceram, pelo país de onde vieram, pela orientação sexual, pela religião, pois isso não as define. Ninguém é melhor ou pior do que ninguém, todos somos iguais. O que define uma pessoa é o seu caráter, não a sua religião, sua etnia, sua orientação sexual, ou gênero.

Me ensinaram a não ser hipócrita e a ser honesta, e assim, nunca me deixei levar por aquele famoso "jeitinho".

Aprendi que todos somos um com o planeta e que precisamos mais dele do que ele da gente, por isso mesmo, temos que defendê-lo, amá-lo, cuidá-lo.

Também fui ensinada que o verdadeiro significado de família não está na ligação de sangue, mas na ligação amorosa que compartilhamos.

Sair do armário foi fácil, pois sempre tive certeza do amor deles por mim. Nunca quiseram outra coisa que não a minha felicidade. Nunca me menosprezaram por eu ser quem sou.

Até hoje minha família - sem laços de sangue - nunca me decepcionou. Sempre esteve presente, sempre apoiou, sempre mostrou amor incondicional a cada adversidade e em cada bom momento.

É... eu devo ter dado muito azar mesmo, pois parece que o que, ultimamente, é considerado "de boa moral" é exatamente o contrário de tudo que sempre me ensinaram. Pois se é assim, eu prefiro continuar sendo “imoral".

domingo, 4 de março de 2018

A multidão

Todos os dias, à caminho do trabalho, vejo a multidão no ônibus, no metrô e me sinto como mais um número. Apenas isso, um número. Um número triste. Apenas mais um num gigantesco grupo de pessoas que repete o mesmo dia de novo e de novo: acorda no mesmo horário, toma o mesmo (ou quase o mesmo) café da manhã, se veste, vai para o trabalho e repete a mesma tarefa hora após hora sonhando com a hora de voltar para casa e com o fim de semana sem perceber que cada um desses tediosos dias infelizes é um dia em na vida que jamais voltará.

Faço parte dessa multidão com olhos cansados ​​e tristes nas manhãs de segunda-feira, mas minha mente nunca deixa de se perguntar como as pessoas podem continuar a repetir infinitamente algo que não as faz feliz? Como e o que posso fazer para mudar meus dias e não cair neste mesmo caminho sem sentido minha vida inteira?

Source: BBC
A multidão move-se lentamente, no mesmo ritmo, até mesmo sua respiração parece seguir o mesmo ansioso e desanimado ritmo. Sorrisos não embarcam no ônibus de manhã, apenas rostos sérios e sonolentos encarando o vazio. Não quero seguir essa multidão.



Nós crescemos ouvindo que devemos fazer o que amamos, mas e se o que amamos não abre as portas? E se todo o tempo, esforço, lágrimas e alegria que você colocou em seus sonhos, não desbloqueou nenhuma passagem? Eventualmente você acaba na multidão, esta triste multidão das segundas-feiras.

Como chegamos aqui? Como e quando a sociedade se tornou essa repetição de tarefas chatas sem um pingo de prazer? Quando esquecemos de nos divertir? De desfrutar cada dia? Mas o mais importante, como podemos sair dessa existência sem sentido?

Quanto mais tempo ficamos em um cargo de trabalho, mais difícil é sair dele. Não porque não queremos, mas porque outros só verão a última e a mais longa experiência que tivemos. O que fazer quando você cai em uma área na qual você nunca pensou, nunca nem passou pela sua cabeça e, consequentemente, num trabalho que para você não faz sentido? Paga as contas, ok, mas é só isso a vida? Me recuso a aceitar essa hipótese. Mas como mudar quando você não sabe o que fazer, onde ir e como chegar lá? Quando você se sente completamente perdido sabendo que seus sonhos de carreira não acontecerão mais? Como mudar de direção quando todas as conexões que você vem fazendo no trabalho não conhecem seu potencial, não conheçam suas experiências anteriores e nem mesmo seu nível de educação para poder encaminhá-lo à outra coisa, à algo mais adequado para você ?

Source: DeviantArt - Amandine Van Ray
Se alguém aí conhece a resposta para essas perguntas, não se sinta tímido em se manifestar, em dar dicas, em transmitir seu conhecimento sobre como podemos mudar as coisas. Todo mundo merece a oportunidade de despertar para uma vida que ama, trabalhar em algo que os faz bem, ser feliz. Às vezes, tudo o que precisamos é um olhar externo para ver diferentes perspectivas, caminhos diferentes. Nunca é tarde demais para escalar essa montanha, mesmo que, às vezes, tudo o que precisemos seja um empurrãozinho.

terça-feira, 15 de março de 2016

Não entendo.

   Juro que não entendo o pensamento corrente por algumas cabeças no Brasil de hoje. Tenho visto tanta reclamação de que as manifestações que estão ocorrendo só são atendidas pela classe média branca.
   Vamos começar pelo começo. O Brasil se encontra sob um sistema político chamado democracia. Diferente de um estado totalitário, a democracia permite que façamos a escolha dos nossos governantes e também permite que, se não estivermos satisfeitos, nos manifestemos por mudanças. Em nenhum momento vem atrelado ao direito de manifestação a classe social ou a etnia. Uma classe social não tem mais ou menos direito de se manifestar que a outra. O mesmo vale para a etnia.
   Sim, o Brasil tem um passado difícil, complicado e, historicamente falando, recente. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão em 1888. A sociedade brasileira vem mudando desde então e continuará a mudar. A cor da classe média hoje é resultado de uma história turbulenta mas que está caminhando pra mudança, só que essas mudanças não acontecem da noite para o dia, nem em uma dezena de anos. Existem processos em andamento para que inclusões necessárias sejam feitas e mais pessoas possam ter acesso a um padrão de vida melhor (com tudo que isso significa), mas essas mudanças levam tempo. A classe média que hoje está aí, é, majoritariamente branca, sim, é verdade, mas isso não significa que não queira a inclusão, que não queira também uma sociedade mais justa. Ninguém tem culpa da cor ou da classe social onde nasceu. Nada disso desmerece o direito à indignação, à frustração, ao desejo de mudança. Nem um, nem outro, invalida o direito de manifestação.
   A classe média sustenta o país. Infelizmente, a classe pobre é tão miserável que não consegue arcar com a própria vida, que dirá com o imposto de renda e, em sua grande maioria, encaixa-se na classificação de "isento". A classe alta, uma minoria, sozinha não sustentaria esse enorme país. Quem arca com grande parte dos impostos é a classe média, trabalhadora que sua para ganhar a sua vida. Se olharmos pra nossa história, quem sempre foi pra rua se manifestar contra os rumos do país? Vamos nos reter ao século XX que é mais pertinente pela liberdade da nação e da população já estar mais consolidada. Lembrem-se, estamos falando da maioria dos que saíram para se manifestar. Quem foi a grande maioria que saiu às ruas para lutar contra a ditadura? A classe média. Quem foi de bandeira em punho pedir Diretas Já? A classe média. Quem saiu às ruas pedindo o impeachment do Collor? A classe média. Isso pra citar apenas três das várias manifestações populares do século passado. Então, continuo sem entender qual é o problema da classe média ir para a rua se manifestar agora. Criticar e desmerecer pela classe e pela etnia é uma forma de preconceito, sim, portanto, cuidado com esse caminho.
Aqueles que reclamam que os que vão às ruas são de classe média e/ou brancos, se estivessem insatisfeitos e saíssem em manifestação, também gostariam de ter seu direito respeitado.
Ao invés de ficarmos de picuinha com quem é que vai às manifestações, vamos permitir ao outro que utilize o seu direito democrático de mostrar a sua insatisfação. Não é necessário concordar com as manifestações, mas para que o país seja realmente melhor no futuro, é necessário saber respeitar o direito de todos de protestar, de cobrar mudanças quando sente-se necessário. Jamais 100% da população concordara e gritará em uníssono pelas ruas. Então, minha gente, vamos parar com essa guerra de classes que não leva a lugar algum. Ninguém é inimigo de ninguém. Quem quer mudança, protesta, quem não quer, nesse momento não sai às ruas. Num futuro, pode ser você o incomodado que precisará sair empunhando bandeira e pedindo um país melhor, e, quando esse dia vier, você também vai querer o seu direito de manifestação respeitado.
Vamos nos dar as mãos e pensarmos como uma nação que, seja pelo caminho que for, tem um só objetivo em comum: um país melhor para todos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A vida é um ciclo

Meu avô já dizia que a vida é um ciclo, sem nada antes ou depois, apenas o aqui e o agora. Ele era uma pessoa muito prática e sábia. Talvez ele estivesse certo ou, talvez, estivesse enganado e nós nos veremos novamente em algum momento. Eu acredito nisso.

Ontem, foi a vez da vovó ir ao encontro daqueles que a amam mas que já estão do outro lado do caminho.

Minha avó foi uma mulher incrível. Desafiou as convenções da época de sua juventude indo jogar vôlei escondida do meu avô. Mas, foi também um forte exemplo de sua geração. Amou suas duas filhas com todo seu coração.  Lutou pra dar a melhor educação pra elas. Amou suas quatro netas com a mesma força e devoção. Foi bisavó com a mesma dedicação, mesmo de longe. Cuidou de todos ao seu redor. Sempre que alguém vinha pedir ajuda, lá estava ela de braços (e portas) abertos. Amor não faltava. Nunca faltou. Era possível enxergar nos olhos dela.

Minha avó era cheirosa. Saía do banho e a casa inteira ficava perfumada. Sua pele segurava o perfume de forma que nunca vi em ninguém. E seu cheirinho delicioso pairava no ar por horas.

Adorava cuidar do jardim, tricotava os casacos mais lindos, fazia as cucas mais gostosas.

Sempre que íamos passar o verão com ela, éramos recebidas com o sorriso mais verdadeiro e uma casa cheia de delícias: barrinhas de chocolate, massas, bolachinhas, lasagnas, cassatas, tortas de bolachinha, e um freezer repleto de sorvetes, tudo feito por ela. Suas delícias eram tão disputadas que, na hora da sobremesa, dava até briga pelo tamanho das fatias. Meu avô se irritava e dizia para "trazer a trena", assim não teria diferença entre os pedaços.

No inverno, quando estávamos só nós duas e já abafadinhas nas nossas camas, era comum ela me perguntar com um olhar sapeca: "que tal um cremezinho?", e descia as escadas correndo pra preparar a delícia na cozinha gelada.

O olhar sapeca estava sempre presente quando o assunto eram sobremesas ou presentes que estava preparando para alguém. Assim como morder a ponta da língua. Marcas registradas da vovó.

Não gostava de melancias. Cresceu ouvindo que melancia mata e por isso não comia. Mesmo depois de anos casada com um alemão que adorava melancias, e de ver todas nós mandando ver em fatias da fruta no quintal durante as quentes tardes de verão, continuava não querendo nem experimentar. Também não gostava de sorvete derretido. Mal começava a derreter e ela já dizia que estava mole.

Amava café com leite e pão. Se deleitava com uma fatia de pão com mel e manteiga e uma xícara de café com leite tinindo de quente. Sim, tinha que estar bem quente. Era uma formiguinha: amava doces, tortas, barras de chocolate (as quais comia roendo como um coelhinho).

Nas manhãs frias de inverno, abria as janelas e deixava o ar gelado entrar para arejar a casa. Colocava travesseiros e cobertores no sol e descia para preparar o café da manhã. Só depois de tudo pronto é que vinha me acordar. Quando eu falava que ela não precisava me mimar desse jeito, ela respondia que vovós são feitas pra mimar os netos e dizia "eu sou tua mamãe de açúcar".

Quando, aos meus quatorze anos, voltei de viagem trazendo na mala um cachorrinho de pelúcia vestindo um macacão, ela gostou tanto do bichinho que acabei dando de presente pra ela. Até então, nunca tinha visto ela se interessar por bichos de pelúcia. Muitos anos mais tarde, ela iria ter vários.

Estava sempre cantando. Uma de suas maiores paixões: a música. Tinha uma voz linda que agraciava todos que tiveram o privilégio de escutá-la. Amava Pavarotti e se emocionava com suas interpretações.

Adorava os personagens italianos interpretados por Raul Cortez.

No fim da vida teve suas preciosas lembranças roubadas, retiradas dela contra sua vontade. Voltou a ser criança: adorava bonecas e bichinhos de pelúcia. Continuou a se deleitar com sobremesas e café com leite por algum tempo. Sua paixão, a música, foi a última coisa a ir embora. Não sabia mais as letras, mas por algum tempo ainda reconhecia as melodias. Aos poucos tudo foi partindo. Não merecia isso. Foi carinhosa até o fim, mesmo em seu mundo sem memórias. Mas, esquecendo-se de nós ou não, eu sei muito bem quem ela era e continuará sendo no meu coração. Merecia todo carinho, amor e respeito com que tratou todos que cruzaram seu caminho.

Agora está livre. Livre das amarras do tempo, do esquecimento, da dor. Pode, finalmente, descansar dos anos "em branco".

Aqui ficam as lições de vida, de bondade, de amor. Com ela aprendi a apreciar os pequenos detalhes, a delicadezas da natureza, a ver felicidade em pequenas coisas. Aprendi o verdadeiro significado de alegria todo dia, de apoio e respeito ao próximo.

Durante sua passagem por este mundo, ela o fez melhor, mais bonito, mais aconchegante. O ciclo se fechou. E que ciclo maravilhoso.

Obrigada, vovó, por todo amor que nos dedicou. Por todo carinho que sempre mostrou. Por todo cuidado que sempre teve com quem amava. Teu amor fez de todos nós, pessoas melhores.

Agora voa, voa livre e feliz. Reencontra teu alemão, teus irmãos e amigos, teus pais. Tu estarás sempre presente em nossos corações

Fica em paz, mamãe de açúcar, fica em paz.


"Não chore sobre o meu túmulo,
Eu não estou lá,
Eu não durmo.
Eu sou os mil ventos que sopram,
Eu sou a neve que cai suavemente,
Eu sou o sol brilhando nos grãos maduros,
Eu sou a suave chuva de outono.
Quando acordares no silêncio da manhã,
Eu sou o estímulo inspirador
Dos pássaros tranquilos voando em círculos.
Eu sou o suave brilho das estrelas à noite.
Não chore sobre o meu túmulo.
Eu não estou ali.
Eu não morri."

(Mary Elizabeth Frye)
tradução livre pela autora


terça-feira, 17 de março de 2015

Um belo lugarzinho na ilha

 


     Nesses últimos dias de inverno tenho passeado bastante pelo bairro que chamo de meu desde que vim morar em Montreal. É um dos maiores bairros da cidade e, como acontece na maioria das metrópoles, foi uma cidade independente até ser anexado à Montreal. Passeando pelas ruas e descobrindo lindas relíquias de tempos já idos, resolvi pesquisar a história desse lugar, mais conhecido pelo estádio olímpico que por suas belezas, chamado Hochelaga-Maisonneuve. Talvez vocês também achem interessante.

     Em 1664, a congregação de São Sulpício se tornou dona desse terreno que hoje corresponde a Hochelaga-Maisonneuve. Eles dividiram o terreno em faixas perpendiculares ao rio e estabeleceram fazendas.

     Devido às dificuldades de navegação do rio Saint Laurent naquela época, as mercadorias dos navios eram desembarcadas mais ao norte e trazidas para a cidade pelo Chemin du Roy (hoje essa rua atravessa a cidade de norte a sul e se chama Rue Notre-Dame). Foi nesse "caminho do rei" que as primeiras casas à beira do rio foram construídas.

Antiga casa do banqueiro Maurice Cuvillier
     No início do século XIX, várias reformas foram feitas em Montreal, entre elas, melhoria do sistema de trens, de navegação, do porto e pavimentação da rua Notre-Dame para retardar a erosão causada pelas enchentes. A vila de Hochelaga também cresceu e, em 1870, foi oficialmente fundada. Os fazendeiros venderam suas terras e famílias de classe-média alta se mudaram para a região.

Georges Moore Memorial Home (asilo)

     A vila se expandiu rapidamente e os cofres públicos foram esvaziados devido às necessidades de construção de infraestrutura básica, como esgotos e aquedutos, assim, a idéia de anexar Hochelaga à cidade de Montreal, foi rapidamente aceita. Em 1883, Hochelaga já era parte de Montreal.

     Quando Hochelaga foi anexada à Montreal, um grupo de donos de terras, cujos nomes são ainda hoje bem conhecidos por aqui, resolveu criar uma cidade modelo baseada no movimento City Beautiful que se espalhava pelo país. Esse movimento promovia a criação planejada de beleza cívica através da harmonia arquitetônica, projeto unificado e variedade visual. Seguindo esse modelo, a cidade de Maisonneuve foi criada. O terreno foi dividido em retângulos onde seus criadores planejavam construir fábricas e grandes edifícios institucionais.

Prefeitura de Maisonneuve
     Entre 1896 e 1915, Maisonneuve cresceu rapidamente, sua política de isenção de impostos atraiu muitas fábricas, o que, por sua vez, atraiu muitos trabalhadores. O empresário e agricultor Charles-Théodore Viau sonhava em criar uma cidade modelo em suas terras (Viauville) e exigiu que os compradores de seus lotes construíssem casas com fachadas de pedra.

Banho público Maisonneuve
     A Grande Depressão (1929 - 1939) pesou sobre as fábricas e os trabalhadores do distrito, obrigando várias famílias a recorrer à assistência social. Projetos de obras públicas, incluindo a criação do Parque Morgan, visavam a criação de trabalho para os desempregados. Durante a Segunda Guerra Mundial, esses projetos foram suspensos e substituídos pela indústria de defesa, o que resultou na recuperação econômica da década de 1960.

Convento Hochelaga
     A construção de grandes infraestruturas de transporte, como a Highway 25, em 1967, e a rodovia leste-oeste demoliu cerca de 2.000 casas e edifícios institucionais, incluindo o impressionante convento de Hochelaga.
Muitas fábricas se mudaram para o leste, na região de Mercier (um antigo aglomerado das vilas de Beau-Rivage, Longue-Pointe e Tétreaultville, anexado à Montreal em 1910). Essas mudanças, combinadas com a mudança de capital e de produção para Toronto, prejudicaram a economia e a vitalidade do bairro. Muitas fábricas e residentes se mudaram da área.

Mercado Maisonneuve
     A chegada das Olimpíadas de 1976, transformou a paisagem arquitetônica do bairro, através da construção de alguns edifícios impressionantes. Durante os anos 1980 e 1990, o Mercado Maisonneuve, que estava fechado desde 1962, foi reaberto, e a primeira casa de cultura de Montreal (a Maison de la Culture) foi aberta onde antes funcionou a antiga prefeitura de Maisonneuve. Novos setores residenciais foram criados na extremidade norte do bairro.

American Can Co.
     Hoje, fábricas abrem espaço para uma indústria de serviços composta por pequenas e médias empresas. Hochelaga-Maisonneuve mantém uma ativa vida comunitária com seus cafés e bistrôs e organizações comunitárias e patrimoniais. A reabilitação da antiga fábrica American Can, várias melhorias e a revitalização gradual das ruas comerciais, incluindo a Promenades Sainte-Catherine e Rue Ontário, são outros sinais da renovação do bairro. Atualmente, a população de Hochelaga-Maisonneuve é composta, em sua maioria, de idosos e não têm tantas crianças quanto outros bairros de Montreal.
Localização do bairro em Montreal
   
A área de Hochelaga-Maisonneuve é delimitada a leste e oeste pela linha férrea paralela à Moreau e Vimont Streets e se estende da rua Sherbrooke, ao norte, à rua Notre-Dame Street, ao sul. Hochelaga-Maisonneuve foi integrado a outro bairro, Mercier e hoje, o nome completo do bairro é Mercier Hochelaga-Maisonneuve.

Maisonneuve, fundador de Montreal
Mercier refere-se ao aglomerado de vilas como dito anteriormente; Hochelaga é uma palavra indígena iroquois que significa "dique do castor" ou "lago do castor"; e Maisonneuve é uma homenagem ao fundador de Montreal, Paul de Chomedey, sieur de Maisonneuve, militar francês que fundou Montreal na, então, Nova França em 1642.
     Muitas das preciosidades arquitetônicas do bairro continuam de pé e em pleno funcionamento, Vale a pena visitar.



Avenida Morgan com Mercado Público Maisonneuve e torre do Estádio Olímpico ao fundo - inverno 2015




Fontes:
Héritage Montreal
The Canadian Encyclopedia
Musée McCord

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A saga dos "momentos Bridget Jones"

O Diário de Bridget Jones - Universal Pictures, 2001


 "Por que é que existem tantas mulheres solteiras na faixa dos 30 hoje em dia, Bridget?"


     Ultimamente tenho vivido muitos "momentos Bridget Jones", com a diferença de que já sou mais velha do que ela no primeiro livro, o que só faz com que esses momentos sejam ainda mais estranhos. Um dia destes, alguém que conheci recentemente (e com quem nunca tive qualquer conversa sobre a minha vida privada), de repente perguntou: "Então, a razão pela qual você está solteira é porque você só conheceu pessoas ruins em sua vida?". Vamos ser claros: a pergunta foi baseada exclusivamente no fato de eu ter 37 anos de idade, ser solteira e sem filhos (porque na maneira de pensar dessa pessoa, de alguma forma, ter filhos significa que você encontrou alguém "bom" em algum momento. Aham ... .). Sem dar muita consideração à resposta - já que fui pega de surpresa e não podia acreditar nos meus ouvidos - respondi imediatamente "não, não é isso". A pergunta era séria?
     Os dias se passaram e eu fiquei pensando por que as pessoas assumem que se você é solteiro é porque você só conheceu idiotas? Isso me fez pensar sobre as poucas pessoas na vida com quem tive um relacionamento e fico feliz em dizer que tenho sido, basicamente, "livre de idiotas". Não tive muitos relacionamentos: apenas dois vida curta e dois que duraram alguns anos. É claro que todos tiveram seus altos e baixos, mas também deixaram boas lembranças, mesmo o mais difícil deles teve bons momentos e esses são os que valem a pena lembrar.
     Todo mundo tem suas próprias questões, eu certamente tenho as minhas. Relacionamentos têm seus próprios problemas, e é natural tentar resolvê-los. Alguns são mais fáceis, outros mais difíceis; ao longo do tempo, uns tornam-se mais fáceis, outros mais complicados, é como a vida é. Eu nunca iria culpar a outra pessoa por estar solteira nos meus "30 e muitos".
     Eu tive dois relacionamentos maravilhosos, se nenhum deles progrediu o suficiente e acabou em casamento é porque não era o momento certo, mas nunca foi porque a outra pessoa era ruim. Relacionamentos são vias de duas mãos e posso dizer que tive a sorte de conhecer pessoas incríveis e inesquecíveis que estarão para sempre no meu coração.
     Então, a minha resposta para essa estranha pergunta é: eu estou solteira porque eu estou. A vida nem sempre acontece de acordo com nossos planos, na maioria das vezes é exatamente o oposto, mas isso não significa que eu não estou feliz. Minha felicidade não está condicionada a estar em um relacionamento, mas a estar em paz com quem eu sou. E, se algum dia, aparecer alguém com quem a relação leve ao casamento e à família, sim, vai ser bom, mas não vai ser "o" motivo da minha felicidade,vai ser, simplesmente, uma adição ao que já é bom.

Bridget Jones: No Limite da Razão - Universal Pictures, 2004